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Há 40 anos, a principal seleção portuguesa de futebol passou rapidamente do sonho ao pesadelo. Da qualificação para o Mundial às ameaças de greve por parte dos jogadores, o observador reconstruiu o polémico caso Saltilho em quatro episódios. O escândalo que destruiu a seleção é um podcast que pode ouvir na íntegra nas habituais plataformas. Falamos com os jogadores, dirigentes e jornalistas que estiveram no México, Consultamos também as páginas dos jornais desportivos desse período, bem como o relatório da participação portuguesa no Mundial de 1986. Desta vez importa olhar para outro documento decisivo na forma como se olha hoje para os atletas que em tempos foram apelidados de mercenários. Recebemos por isso o advogado Jaime Dória Cortesão. Eu sou a Carla Jorge Carvalho e ao meu lado está o Carlos Pedro.
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É licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, tinha 41 anos, em 1986, e foi ele quem ficou responsável, a pedido da Federação Portuguesa de Futebol, por instruir um inquérito aos factos ocorridos durante o Campeonato do Mundo do México. Jaime Dória Curtizão está connosco em estúdio. Bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por aceitar falar connosco. Perguntava-lhe já em que circunstâncias foi convidado para fazer o relatório sobre os acontecimentos de Saltilho. Quem o contactou?
01:20
Quem me contactou foi exatamente o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, doutor Silva Rezende, por indicação de um amigo brasileiro. comum que tinha trabalhado comigo, ou que tinha trabalhado comigo, exatamente, antes do 25 de Abril, no Ministério das Cooperações.
01:47
Foi essa pessoa que um dia eu estou no Porto e recebo uma chamada telefónica e que me diz, vou-te passar do doutor Silva Rezende, que eu não conhecia de parte nenhuma, a não ser de nome, e de bom nome, aliás. E ele disse, mas o doutor, como sabe, houve aquele caso de Saltilho e tal, gostaríamos que o doutor procedesse a um inquérito do que se passou em Saltilho. E eu disse, deixe-me pensar, dou-lhe a resposta, presumo que disse, dou-lhe a resposta amanhã, uma coisa qualquer assim, e pronto. E então avancei.
02:26
Avançou. O que é que ponderou? O que é que o levou a aceitar e o que é que o levou a pensar se é que isso aconteceu que não valia a pena entrar nesse processo?
02:36
Eu vou dizer com toda a sinceridade que aceitei o inquérito no pressuposto de que havia, tinha havido um comportamento perfeitamente censurável da parte dos jogadores e que, portanto, era necessário um inquérito para que isso viesse ao de cima e apurar as responsabilidades. Foi essa a convicção com que eu aceitei. modifiquei-a toda ao longo do processo.
03:08
Pois foi, e queremos perceber como é que acontece isso, porque de facto todos os portugueses na altura tinham uma opinião sobre o que tinha acontecido em Saltilho e ficou indignado com a atitude dos jogadores.
03:18
Fiquei indignado porque o que...
03:23
vinha cá para fora, o que vinha cá para fora era um comportamento indecoroso dos jogadores. E lembro perfeitamente que até havia nessa altura a ideia de que os jogadores tinham tido uma voz ativa por intermédio de um triunvirato que era o Bento, o Carlos Manuel e o Diamantino, o chamado Grupo do Barreiro. Portanto, identificados com esquerdismos, para não dizer o PC, digamos. Era o que constava nessa altura na chamada sociedade, que hoje nós denominamos com muito orgulho, sociedade civil.
04:04
Eu fazia parte dessa sociedade civil e também estava convencido que tinha sido isso. Mas quando é que houve falar pela primeira vez de polémicas em Saltilho? Quando é que chega aos seus ouvidos que há de facto problemas com a Seleção Nacional no estágio do Mundial 1986? Não lhe
04:23
Posso precisar a data certa, mas foi na altura, exatamente, quando a seleção já estava no México, já estava em Saltilho. Na altura do comunicado? Antes disso, antes da partida, não. O que eu me lembro, não tive qualquer noção acerca do que é que iria passar, do que estava a acontecer, do que podia acontecer.
04:47
Então, diz-nos que parte com a convicção já de quem são os principais responsáveis por aquilo que acontece em Saltinho. Quais são os primeiros passos que faz na execução do trabalho, do inquérito?
04:59
O primeiro passo que eu faço é...
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Fui à Federação, fui à Federação, na sequência do telefonema do doutor Silva Rezende, eu estava no Porto nessa altura onde recebi esse telefonema, eu fui, já não sei passado quanto tempo, um dia, dois dias ou três, já lá vai tanto tempo, já lá vão 48 anos, e fui à Federação a recolher o chamado material, o chamado material.
05:28
Que era? Nada mais, nada menos que o relatório feito pela própria Federação. O próprio relatório feito pela Federação.
05:36
deram-me esse relatório, conheci nessa altura o doutor Silva Rezende, acho que conheci também nessa altura os outros dirigentes, o António Pimenta, o Amando de Carvalho, e os funcionários superiores da Federação, o César Grácia e António Malva. Foi esse contacto que eu tive, peguei no dossiê, peguei no dossiê, levei-o comigo, levei-o comigo, Fiz questão de não levar o dossier para o meu escritório de advocacia, porque não queria confundir o plano profissional com aquela missão, digo eu, de que estaria incumbido. E até, portanto, utilizei uma sala fora do meu escritório para, em Lisboa, ouvir os jogadores que estavam cá. No Porto foi diferente... ouviu os jogadores todos no hotel Porto Atlântico, no Graham.
06:38
Portanto, com esse material da Federação, reforça a convicção de que os jogadores não estiveram bem, porque o contexto ou as conclusões desse relatório é para aí que apontado.
06:47
Sim, vamos lá ver o seguinte. Talvez seja um bocado exagero da minha parte, mas aquele relatório, digamos, funcionava, funcionava como nota de culpa, nota de culpa jogadores. Portanto, era um ponto de partida, era um ponto de partida para se ajuizar do comportamento da comitiva. Eu digo comitiva porque englobava também dirigentes, o selecionador, os médicos e isso tudo. Não era só jogadores, nem de perto nem de longe.
07:18
E depois para elaborar o seu inquérito aos factos, falou com todos os intervenientes ou falou com toda a gente que quis?
07:29
Falei com toda a gente que quis mas queria aqui dizer queria aqui deixar dito que pouco tempo depois de me ter sido entregue o relatório da federação ele veio publicado nas jornais Houve, portanto, uma fuga de dentro da Federação, certamente com um espírito de...
07:55
Talvez a palavra é um bocado dura, mas dizer... Vou utilizar uma... Não aqui a utilizar que era sabotar, mas contornar. Contornar a...
08:06
O seu trabalho. Interpretou assim como um condicionamento.
08:09
Interpretei como... Não era o meu trabalho. Era o próprio trabalho da Federação.
08:16
Acho que alguém lá dentro que discordaria do que se teria passado da reação da Federação no pós-Saltilho, resolveu, digamos, por sua iniciativa, nunca soube quem foi, e não sei se a Federação há uma vez conseguiu apurar quem foi, essa pessoa, digamos, apercebendo-se de que me tinha sido entregue um relatório que, como eu digo, era uma verdadeira nota de culpa, relativamente à comitiva, quis contornar, para não dizer se sabotar, o trabalho. Tanto assim que eu tive mesmo para não iniciar o trabalho e fazer e ir entregar o dossiê, olha, está aqui, não pegue nisto, uma vez que já viu a cor do dia e é público, não vale a pena, não vale a pena fazer isso.
09:11
Considerou e começou a ouvir os jogadores a seguir, foi o primeiro passo?
09:17
Comecei a ouvir os jogadores a seguir, já não me lembro se comecei pelos de Lisboa, se comecei pelos do Porto, mas ouviu os jogadores todos. Todos, ouviu os jogadores todos. A única pessoa que não...
09:30
que eu não conseguia ouvir, porque pura e simplesmente se recusou, disse-me, eu aliás até o conhecia, sem ser dessas lites desportivas, conheci-o de que ele frequentava o mesmo restaurante que eu nessa altura, que era ali na...
09:45
tinha chagas, foi o Jaquim Oliveira, o homem do livro de esportes.
09:51
Que nunca falou consigo.
09:53
Esse não.
09:54
Era importante ter o ouvido.
09:55
Ele disse, ele disse, ó doutor, gosto muito de si, tenho muito respeito por si, mas não me meta nesse caldo. Caldo ou sarilha, alguma coisa qualquer assim. Foi assim. Desculpa, eu estou a falar com a vontade, mas que... Acho que é assim que as coisas devem ser faladas.
10:15
Mas houve algum testemunho de um jogador que o tenha particularmente surpreendido?
10:24
Não, por uma razão muito simples que eu lhe vou dizer com alguém. Com a publicação do relatório, o que é que aconteceu?
10:31
Presumo eu, para não dizer que tenho a certeza... O sindicato dos jogadores, através do Dr. Paulo Relógio, meu colega, digamos, estudou o processo e deu instruções aos jogadores. Portanto, ouvir um jogador hoje, ou ouvir 30 jogadores 30 dias depois, era exatamente a mesma coisa. O argumento deles era sempre o mesmo. E dali não saiam.
11:00
Todos disseram o mesmo.
11:01
Todos disseram o mesmo. E o que diziam eram isto.
11:05
Se havia publicidade, nós tínhamos que participar dela. Até porque nós éramos a montra da publicidade. E era isso que eles diziam. E foi à volta disso que andou ali o inquérito.
11:23
E foi aí que começou a mudar de opinião, quando ouviu esse argumento?
11:28
Não, comecei a mudar de opinião quando me apercebi que tinha havido já reuniões em Lisboa antes da comitiva partida, em que os jogadores tinham levantado os problemas dos prémios, da participação ou não nas receitas de publicidade, nessa tal perspectiva de serem a montra, e aí disse alto, alto. E depois havia também umas histórias que se contavam em redor da presença de Portugal em Saltilho, que envolvia, enfim, coisas menos, digamos, hoje talvez com cenas normais, naquela altura menos normais.
12:18
Está a falar do álcool, da presença de mulheres?
12:21
Estou a falar da presença de mulheres, da presença de mulheres. A presença de mulheres. E até se constava naquela altura que aquilo tinha sido incentivado pela comitiva com controles feitos temporalmente pelo próprio selecionador nacional, José Torres, que foi das pessoas mais encantadoras. encantadoras que eu conheci no âmbito do futebol.
12:54
Era um homem extraordinário e era um amigo dos jogadores e era respeitado pelos jogadores.
13:00
Precisamente sobre o ministério José Torres, ficou claro o papel do treinador nesse braço de ferro entre a Federação Portuguesa de Futebol e os jogadores?
13:10
Que papel teve o ministro?
13:13
Ele era o conselheiro, digamos, era o jogador mais velho da seleção, era o conselheiro dos jogadores, conselheiro no sentido de temperar as águas e pôr água na fervura. Teve sempre uma intervenção da calmeia dos ambientes, porque aquilo de facto teve aceso, porque havia promessas atrás de promessas, quem estava em Saltilho era o Amândio de Carvalho, o dirigente da federação, quem tinha ficado em Lisboa era o António Pimenta, eu poupo os senhores, designá-los como senhores, o Amando Carvalho, o António Pimenta, porque o António Pimenta é que tinha tido reuniões com os jogadores em Lisboa, no continente, mas ele não foi, e quem foi? Foi o Amando Carvalho. Presumo que houve ali uma desinteligência no percurso, antes da seleção partir para para o México e portanto quem estava no México não tinha falado com os jogadores cá quem ficou em Lisboa é que tinha falado com os jogadores e isso no fundo contribuiu imenso para o agudizado da situação
14:43
Do grupo de jogadores, todos os jogadores com quem falou, já disse que todos disseram o mesmo, mas encontrou diferenças nesse tal grupo citado, Bento, Carlos Manuel Diamantino, eles eram de facto líderes de alguma forma do resto da equipa e sentiu que tinham um poder, que exerciam algum poder sobre os restantes companheiros.
15:05
Aquilo foi uma manifestação coletiva em que não se destacou A ou B. Quem se destacou mais, mas porque tinha um papel de intermediário entre os jogadores e a Federação e os dirigentes, foi o jogador Fernando Gomes, do Porto. Ele é que levava, digamos, como se só ia dizer, a carta à Garcia e trazia novamente a carta...
15:30
Não era o capitão de equipa, o Manuel Bento?
15:33
Nem me lembro quem é, o capitão era o Manuel Bento. Manuel Gorrinho Bento. Exato. Eles, os jogadores, os jogadores não se destacaram na...
15:46
Durante o inquérito. Aliás, houve um, curiosamente, que eu anotei por uma razão muito simples. Porque tinha havido um caso qualquer, uma prepécia, uma prepécia, entre o doutor Camacho Vieira, que era médico da seleção, e o Jean Pacheco.
16:10
Tinha havido. E, enfim, que eu não vou agora aqui descrever essa prepécia, mas, digamos, foi o único lado que se destacou de todas as intervenções dos jogadores. E, curiosamente, foi um facto que eu registrei, foi um facto que eu registrei, Houve um jogador que me disse, no fim da inquiriação, em que disse o mesmo que os outros, voltou-se para mim, cá fora do hotel Porto Atlântico, no Porto, voltou-se para mim e diz-me assim, ó Soutor, não faça nada, não faça nada contra o Jean Pacheco.
16:53
Ele é um tipo extraordinário, é cheio de graça, é um brincalhão, não leva a sério a peripécia que ele teve com o doutor Camacho Vieira. Foi o único jogador que interferiu, que intercedeu por outro. Foi uma coisa que eu assinalei. Aquilo era de tal maneira coletiva que eles não tinham necessidade de se defenderem uns aos outros ou de se incriminarem uns aos outros. Não, não.
17:19
E não o distinguiu de facto ao Jaime Pacheco no sinal do seu trabalho.
17:24
Olha, já não me lembro, já não me lembro. Acho que relatei com alguma coisa após o Jean Pacheco, mas não...
17:31
Não o distingueu?
17:32
Não, o processo foi arquivado porque o processo, sou-lhe franco, o processo nem devia ter começado. E só começou porque Portugal perdeu. Porque se Portugal não tem perdido, não havia caso de Saltilha. Tenho dúvidas nenhumas.
17:51
Foi, não digo um pretexto, mas uma razão para aligerar as culpas na ida da seleção para o México, porque não houve programação nenhuma, não houve planeamento, foi tudo diletante, foi tudo diletante.
18:12
Ao contrário do que já dos clubes que principalmente tinham dado jogadores à seleção. Já estavam muito mais profissionalizados. Já estavam muito mais organizados, muito mais comandados, enfim.
18:29
E isso refletiu-se muito lá, nos jogos de treinos, na ausência de competidores, nisto e naquilo.
18:40
Aquilo foi, aconteceu tudo o que não devia acontecer. E não aconteceu o que devia acontecer.
18:48
Disse que o tema não deveria vir a público, mas não considera que se não se falasse disso nessa altura o problema não podia ficar ainda pior, uma espécie de bola de neve?
19:03
Não, vamos lá ver o seguinte, a certa altura falava-se tanto naquilo que o Alva a bater era o Presidente da Federação, o doutor Silva Rezende.
19:12
Até porque já havia informações de que no Europeu de 84 a coisa também não tinha ocorrido bem.
19:17
Exatamente, no Europeu. E o clima geral, e até posso-lhe dizer...
19:23
Posso aqui dizer e revelar que os próprios serviços administrativos da Federação me disseram a mim, nomeadamente César Grácia e António Malva, já desaparecidos, já desaparecidos, me disseram. Sou todo saltinho comparado com o França 84, não é nada.
19:44
Já me dá hora e cortezão. Vamos continuar a conversar, vamos só fazer uma pausa e já voltamos. Até já.
20:00
Estamos de regresso à conversa com o Jaime Dória Cortesão nesta entrevista a propósito da participação portuguesa no Mundial de 86. Estávamos a falar aqui das condições de trabalho, quer do Mundial em 86, quer dois anos antes no Europeu de França. As condições de trabalho que ficou a conhecer através do inquérito que realizou chocaram de facto. O que é que ali estava errado?
20:27
Vamos dizer, ali faltava tudo.
20:30
Nem se pode dizer que estava errado ou que estava certo. Faltava tudo. Faltou tudo plenamente, a programação, as marcações. A viagem para o México foi organizada. Até havia, naquela altura, corria que tinham sido favores que a Federação tinha feito a uma agência de viagens, coisa que nunca se provou, pelo contrário. E, portanto, falava-se muito, dizia-se muito, mas não...
20:59
De factualidade, pouco ou nada existia.
21:03
Havia uma equipa técnica, havia um preparador físico, havia um médico...
21:08
Havia o médico, era o doutor... Sim, Camacho Vieira. O preparador físico, julgo que era o professor Monge da Silva. Precisamente. Julgo, mas não garanto. Não garanto, porque já levam 40 e tal anos e eu...
21:24
Não era aí que a seleção estava mal, era na questão de organização, de planeamento.
21:30
A organização, o hotel, o hotel não era um hotel, era um motel, não teria aquelas condições, tinha as mínimas, mas não tinha as desejáveis, e portanto falhou, falhou, a federação aí falhou. E, portanto, isso talvez os jogadores não se tinham acompanhados por uma boa organização. Isso era evidente. Toda a gente criticava. Acho que o hotel nem sequer tinha uma sala de estar...
22:12
para reunir, os jogadores se queriam falar uns com os outros e reunir, tinha que ser à volta da piscina, jogo eu, jogo eu, enfim, era um forróbador.
22:25
Houve falta de disciplina no estágio, a responsabilidade no fundo pode ser atribuída a alguém em concreto?
22:36
Olha, há uma expressão portuguesa que eu não gosto de utilizar, mas que se aplica inteiramente ali. Eu na minha vida profissional não sou assim. Que é o nacional porreirismo. Está tudo a correr bem, nós improvisamos isto e aquilo e tal. Era assim que se fazia. Hoje em dia não. Hoje em dia, a Federação Portuguesa de Futebol, não é que eu conheça lá alguém de perto, é uma estrutura Mesmo séria e a sério. E a sério. É tudo ao pormenor.
23:08
E o 86 teve impacto no que é hoje?
23:11
A falta de organização, de planeamento, de programação, tudo. Veio tudo ao de cima. Veio tudo ao de cima. E culminou, digamos, com as reivindicações dos jogadores e aquela coisa absurda de quem esteve cá não foi e quem foi não tinha cá estado.
23:34
O sindicato dos jogadores foi importante para a discussão que se seguiu ao caso de Saltilho. Consigo, nomeadamente, ouviu também o sindicato... Ou o facto de os jogadores já terem tido conversas prévias antes de falar consigo? Não, não.
23:49
Eu tenho a ideia que não cheguei a falar com o sindicato. E o mundo dá muitas voltas. Veja lá bem que o presidente do sindicato naquela altura era o Zé Eduardo Sampaio. E nada mais, nada menos. Há uns anos eu fui advogado de Zé Eduardo Sampaio num processo dele, do Marco Silva contra ele, por causa de umas razões que ele tinha feito.
24:12
O mundo é pequeno. O mundo é muito pequeno. Dá-me três voltas.
24:15
Dá-me três voltas. Foi difícil apresentar um relatório que contrariava a tese de quem o convidou a fazer o relatório?
24:29
Como deve calcular...
24:32
talvez a entrega do relatório correspondesse, no espírito de algumas pessoas, a natureza de uma encomenda.
24:46
Toma lá isto e faz lá aquilo que é o desejável para a Federação.
24:54
Mas tenho que ser muito sincero.
24:57
Nunca tive pressão alguma de ninguém, e sobretudo quero aqui referir a total ausência de pressão pelo doutor Silva Rezende. O doutor Silva Rezende nunca me dirigiu a palavra, nunca disse ao doutor Cruzão, veja lá, como é que isso está, como é que vai o processo, como é que está, nada. Tive liberdade total. Portanto, eu fui à Federação pela segunda vez para entregar o relatório e pronto.
25:28
E não voltou a falar com o Silva Rezende?
25:30
A propósito do caso? Não voltei a falar com o Dr. Silva Rezende.
25:34
Não foi contactado por ninguém depois de entrega o relatório por alguém da Federação Portuguesa de Futebol?
25:40
Que eu me lembre, não fui contactado.
25:45
Que eu me lembre, não fui contactado.
25:47
Não fui.
25:49
Eu não tenho dúvidas nenhumas que o relatório surpreendeu a direcção da federação.
25:56
por ser eventualmente inconveniente para os designios iniciais, se é que os houve. A federação foi obrigada a fazer um inquérito, porque as associações de futebol regionais ou distritais, ou conselheiros, como se queira chamar, faziam uma grande pressão para que houvesse um inquérito. Em nome de quê? Daquilo que constava cá fora e que se provou no final. Foi um... uma reivindicação total, mas sou claro numa coisa. Tivesse Portugal tido um sucesso, um sucesso futebolístico, Saltilho já era recordado por ideias contrárias àquelas que ainda hoje se falam.
26:43
Mas isso é também um bocadinho o tal nacional porreirismo de que estava a falar. Quando as coisas correm bem, quando os resultados desportivos são bons, não se olha para os problemas.
26:51
Não se olha para os problemas. As pessoas passam ao lado deles, por cima deles, etc.
26:56
Mas era uma bomba relógica.
26:58
Mas queria deixar aqui bem frisado. Fui duas vezes à federação, uma para recolher o relatório e outra para o entregar.
27:06
Conheci aí o doutor Silva Rezende, que nunca me falou em nada, nunca me pressionou em nada. Ninguém, ninguém. Lembro-me de ter... Lembro-me de ter...
27:21
com o Sr. César Grácio, o Dr. César Grácio, e o António Malva, almoçámos duas vezes, duas vezes, a um restaurante onde, por acaso, ia o Jaquim Oliveira, ia bastante o Jaquim Oliveira, que era ali na Pinheira de Chagas, e pronto, e eles também, no fundo, no fundo, também...
27:48
nunca me pressionaram e só saber se eu era bem tratado pelos jogadores, se era maltratado, mas isto e aquilo, pronto, e não passou disto, não tive a mínima, mínima pressão.
28:02
Ainda assim diz que o relatório acredita que o relatório terá surpreendido a Federação Portuguesa de Futebol e a sociedade portuguesa surpreendeu os portugueses, ficaram surpreendidos, quais foram as reações?
28:16
Naquela altura é capaz de ter surpreendido alguém porque havia ali ainda, as coisas não estavam esclarecidas e, portanto, os jogadores tinham sido os maus da fita. É natural que tenha surpreendido. Hoje em dia, se o relatório fosse hoje, se o caso Saltilho fosse hoje, não surpreendia ninguém porque as pessoas não estão habituadas a que os inquéritos e os processos deem a alguma coisa. Isto é um país de brantos costumes. Mas ali não foi brantos costumes. Ali foi justiça feita.
28:51
E acha que o seu relatório o contribuiu para acabar com este braço de ferro?
28:57
Vou lhe dizer mais uma coisa. Eu acho que até o meu relatório Se fosse no sentido contrário, por alguma razão, que ia complicar muito mais a vida à Federação.
29:07
Porquê?
29:08
Eu acho que o relatório, por não se ter transformado o inquérito num processo disciplinar e ter sido, digamos, praticamente, acho que sim, arquivado... até terá aliviado a federação porque as pressões das associações junto da federação eram imensas.
29:26
As pressões porque além dos castigados houve também uma série de indisponíveis muitos jogadores que deixaram de querer ou de poder alinhar pela seleção.
29:37
Houve jogadores que não quiseram representar mais a seleção houve jogadores que se mostravam se auto-suspenderam não se auto-excluíram E houve só um jogador que eu conhecia bem, porque eu sou da Académica, e ele tinha sido jogador da Académica durante vários anos, vindo do craque eslameco, que era o Álvaro. Eu conhecia-o bem. Eu conhecia-o bem como jogador da Académica. Os outros conheci-os de nome, conheci-os de nome apenas.
30:16
Este caso tornou-se também num caso político. O assunto esteve no Parlamento. O assunto foi discutido pelo Primeiro-Ministro, pelo Presidente da República.
30:25
Isso foi também uma pressão para que a situação se resolvesse?
30:33
Não. Eu acho que com a entrega do relatório o assunto ficou resolvido. Eu acho que ficou resolvido. E depois, como sabe, os políticos apanham o comboio.
30:45
Foi isso que fizeram também aqui?
30:46
Acho que sim.
30:48
Esteve em discussão e houve uma possibilidade muito séria de haver uma comissão parlamentar de inquérito ao caso, só não aconteceu por um voto dos deputados.
30:58
Teria sido diferente se o assunto fosse levado ao Parlamento?
31:05
Olha, eu gosto das comissões de inquérito, politicamente falando, e parlamentares, porque acho que se apura lá muita coisa, embora fique também muita coisa por apurar, mas há trabalho por fico, há trabalho por fico nas comissões de inquérito. Portanto, era natural que essa comissão de inquérito produzisse um trabalho útil, mas quase que lhe garante, embora ninguém possa afirmar isso, que as conclusões não seriam diferentes daquelas que constavam do relatório feito por mim, que não havia razão para haver um escândalo, um escândalo do caso Saltilho.
31:46
É o que eu pensei na altura e continuo a pensar.
31:56
Os jogadores naquela altura não eram perspectivados como são hoje, que são titulares de direitos e deveres. Naquela altura eram pessoas que, como dizia a sociedade civil, elitista dizia, eles nem sabem comer.
32:18
Hoje não é assim. Hoje não é assim. Hoje, se calhar, temos dirigentes é que não sabem comer.
32:25
Os jogadores não eram trabalhadores privilegiados na altura? Eram montras, como a expressão que utilizavam?
32:33
Eram montras, quer dizer, eram privilegiados na medida em que...
32:39
ganhavam muito mais que o cidadão comum, não é? Embora nada parecido com as somas astronómicas de hoje, mas eram seres humanos como os demais. Mas havia muita gente que olhava para o jogador como o tipo que só sabia dar pontapés na bola e que não tinha massa cinzenta.
33:06
Não é assim hoje. Hoje, e deixou de ser, a partir do caso de Saltilho, acho que o papel do jogador ganhou, e do próprio dirigente desportivo, ganhou uma nuance e um grau de... Então, podia-lhe que... Estava a contar-nos que, depois de entrega o relatório, teve um contacto da Federação?
33:33
De alguém da Federação?
33:35
Não, não foi da Federação. Foi do Sr. Armando de Carvalho.
33:39
Emocionado, porque eu na véspera, julgo que foi na véspera, tinha referido na televisão, numa entrevista, presumo, conduzida pelo Ribeiro Cristóvão, pelo jornalista Ribeiro Cristóvão, tinha, digamos, resgatado a imagem do Amando de Carvalho.
33:59
Tinha resgatado. Dizendo que ele não era culpado do que se tinha passado, mas que a situação amontante é que era responsável por aquilo que se lá passou. E ele telefonou-me.
34:16
Soutor, era só para lhe agradecer as suas palavras. Ele disse nada a agradecer. Não disse mentira nenhuma. São justas. E, portanto, olhe...
34:28
Durma descansado Que é o que o senhor precisa dormir descansado Porque o senhor tem andado sempre aí Tem andado sempre aí O seu nome sempre aí atravessado E depois, curiosamente Uma vez encontrei-o No tribunal do Montijo Quando ele foi apresentar a candidatura, o que era para a Câmara do Montijo, uma coisa que eu guaguaria, com as assinaturas necessárias, encontrei, e ele fez uma grande festa, uma grande festa, nunca mais ouvi, sei que ele, entanto, morreu. O António Pimenta nunca mais ouvi, e o doutor, como eu lhe disse, foi, na entrega do relatório da Federação e depois na entrega do meu relatório, duas vezes, nunca mais ouvi.
35:12
Nunca mais.
35:13
Então o que nos está a dizer é que conseguiu passar por este processo não fazendo inimigos.
35:23
Que ele sinta? Que ele sinta não, mas às vezes nós os inimigos vêm de onde menos se espera. Mas neste caso concreto posso lhe dizer...
35:36
que não senti da parte de nenhum jogador. Eles tinham receio. Os jogadores tinham receio. Estavam convencidos que ele estava ali mancomunado com a Federação para lhes cair em cima. Mas acho que eles foram... convencendo a Lalonde do processo de que eu era isento.
35:59
Não fez questão de dizer isso logo no início das conversas com os jogadores?
36:04
Não, não, não.
36:08
Mas que eu me lembro, não senti necessidade de dizer que eu não estou aqui para lhe tirar a pele e os ossos. Acho que não.
36:17
Mas não foram conversas tensas?
36:20
Não.
36:21
Não, foram...
36:22
Conversas normais, naturais, distinguindo-se de alguns jogadores por uma terminologia mais rica do que outros, enfim, só por isso. Mas, de resto, não. Eu acho que eles, a certa altura, convenceram-se. Convenceram-se que, de facto, que eu seria, digamos, tão isento quanto possível, tão independente quanto possível. Acho que se convenceram disso E se convenceram, convenceram-se com razão
36:53
Só aqui uma curiosidade. Por acaso, seguiu alguma ordem em específico? Defuniu alguma ordem de conversas com os jogadores ou foi tudo aleatório?
37:03
Olha, que eu me lembro, não. Já nem sei por quem é que comecei.
37:08
Já nem sei se comecei por Lisboa ou comecei pelo Porto. Eu só me lembro de uma coisa que era um episódio de giro.
37:15
É que quando o Fute, quando chamei o Fute para ir portar declarações, Praticamente tive que o acordar Porque o Fute dormia Com uma facilidade Em todo o sítio Mas adormeceu no escritório? Não, no hotel, no Porto Atlântico Estava Semi-adormecido E lá veio ele Era um jovem atleta rebelde Era Rebelde, era igual aos outros Era simpático Talvez atrevidote, não sei
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Ouviu também os jornalistas, para si era importante ouvir também quem lá esteve, quem esteve em Saltilho e foi relatando os acontecimentos, até porque há acusações que envolvem de alguma indisciplina que envolvem os próprios jornalistas que lá estavam.
38:06
Olha, sinceramente não lhe sei dizer se ouvi jornalistas ou não.
38:12
Se não ouvia foi porque achei que não era necessário. Se ouvia foi porque achei que era necessário. Mas se me perguntar hoje se eu ouvi ou não ouvi, não lhe posso dizer. E muito menos quem.
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Não tem memória, não registra ou é porque não foi importante.
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Houve, agora já conseguimos dizer isto, houve de facto um antes e depois de saltilho para a forma de funcionamento do futebol português. Ou de cada vez que há um problema com a seleção nacional nos lembramos de saltilho.
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Vamos lá ver o seguinte.
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O futebol de hoje, a organização, o futebol, o que está a montante e a justante do futebol é completamente diferente daquela altura. Agora, Saltilho serviu exatamente para mostrar como é que as coisas não podiam acontecer.
39:01
Antes de uma comitiva partir e representar o país.
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E se fosse hoje? E se fosse hoje?
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Não havia Saltilho.
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Porque estava tudo programado, tudo planeado, tudo como deve ser. Transmercados, horas, o hotel como devia ser, etc, etc.
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Não vai voltar a acontecer.
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Olha, nunca podemos dizer o que é possível, como a lei de Murphy diz, o que é possível acontecer, acontece. Mas eu estou convencido que não será provável.
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Não será provável. Hoje as coisas são levadas muito a sério. O futebol de hoje não tem nada a ver com o futebol de há 40 anos e o de há 40 anos não tinha nada a ver com o futebol de 40 anos antes do tempo da Segunda Grande Guerra e assim sucessivamente. Estamos em evolução Hoje em dia Hoje em dia O futebol está muito estruturado Mesmo a nível Da terceira e da segunda divisão É impressionante Com os seus departamentos técnicos E sobretudo Com uma coisa que Hoje é a palavra de ordem de todos os clubes É a formação A formação
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No fim de tudo isto, e 40 anos depois, tem a convicção de que se fez justiça neste caso?
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Completamente. Fez justiça completamente. Ou por outro, até diria ao contrário.
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Seria uma injustiça ter havido alguma condenação. As coisas, olha, era a época.
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Era a época. A falta de estrutura era a época. Traduzia a época. Também tínhamos 10 anos de democracia naquela altura.
40:57
Enfim, as coisas é iniciar-se.
41:03
O que é que espera da seleção que vai começar este Mundial?
41:09
Olha, para lhe ser franco, as minhas esperanças não são muitas. Alguns jogadores têm uma acumulação de jogos impressionante e, portanto, a questão física vai ser, quanto a mim, vai ser preponderante, porque a questão técnica, nós somos dos melhores do mundo, como sabe, não é? Não é por termos o melhor do mundo, ou o ex-melhor do mundo, não é por isso, mas de facto temos uma capacidade técnica espantosa.
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E outro tipo de condições também. Já não vamos com 40 dias de antecedência?
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Não. O quê? Ah, sim. Aquilo foi uma loucura. A estadia e a duração de estadia. Ainda por cima num sítio sem quaisquer condições.
42:04
Com um campo inclinado.
42:05
Campo inclinado, com buracos, sem equipes para treinar. Olha...
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Havia muito pouco. Havia muito pouco.
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Mas enfim.
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Jaime Dória Cortesão, muito obrigada por teres vindo à Rádio Observador.